sexta-feira, 13 de março de 2009

Olhos amarelos

Achei que a ocasião, sexta-feira 13, seria uma boa oportunidade para relembrar um fato singular, acontecido há mais de dezesseis anos.


A narrativa abaixo, datada de 2004, foi uma tentativa de guardar, de alguma forma, as impressões daquele longínquo ano de 1993. Na ocasião, bastou-me. Luciano, por sua vez, nunca ficou satisfeito e sempre lembra de detalhes não contemplados.


Prometi que, em breve, redimir-me-ei da falta. Até lá, deixo apenas o seguinte esboço, que está para completar cinco anos.

OLHOS AMARELOS

"O tempo em que tal fato ocorreu não é importante. Mesmo assim, sinto uma insuportável necessidade de afirmar que tudo se passou há onze anos. Dessa forma, fixo-me ao ano de 1993.



As circunstâncias festivas que nos fizeram ir até o interior do Estado também não são importantes. Não tinha sido a primeira nem seria a última visita que faria à terra do meu amigo Otávio, sendo que essa foi a única viagem que fiz, para lá, com Luciano.



A jornada de ida transcorreu sem nenhum acontecimento digno de nota. O mesmo se diga em relação à nossa curta permanência às margens do Paraíba, que durou talvez quatro ou cinco horas. Luciano, mantendo sua tradição, não bebeu nada. Eu, que naquela época bebia, segui seu exemplo simplesmente porque tinha de dirigir.



Estávamos voltando para casa, conversando animadamente e ouvindo a música abafada que nos era oferecida pelo rádio, pois o carro da minha mãe não possuía toca-fitas. Tínhamos deixado a cidadezinha no escuro, um escuro quase acinzentado, pressentindo que encontraríamos uma Maceió já iluminada pelos primeiros raios do sol.



Depois de um pouco de estrada, atravessamos Capela, passamos por Atalaia e pelas retas da Chã de Pilar. Não demorou e já estávamos na primeira lombada de Satuba. Satuba começou e Satuba terminou. À direita já distinguíamos a Escola Agrotécnica, meio escondida por algumas árvores e por uma fina camada de neblina. Nesse trecho sinuoso, que vai até um pouco antes de chegar à ladeira que desemboca na Capital, encontramos a criatura mais estranha e improvável que tivemos a infelicidade de contemplar em nossas vidas.



Acabávamos de sair de uma curva perigosa, portanto vínhamos em baixa velocidade. Mesmo assim pisei com bastante força no freio. Luciano, que gostava de recuar o encosto do assento e pôr os pés descalços no painel, num instante se levantou e arregalou os olhos. Estávamos os dois surpresos. Havia alguém no meio da pista.



Aproximamo-nos lentamente da figura que permanecia parada, de perfil, com a cabeça voltada para o outro lado, ou seja, para o sentido de quem vem de Maceió. Quanto mais perto chegávamos, mais acreditávamos que nossos olhos estavam nos traindo. Pensei que talvez fosse um mendigo alienado, com seu saco de utilidades e miudezas, um caçador levando espingarda, caça e alforje ou um vaqueiro madrugador carregando seus arreios sobre os ombros. A aproximação nos mostrou que não era nada disso. Parei o carro a uns dez ou quinze metros daquele ser indefinido, que não esboçou nenhuma reação com a nossa chegada.



Havia um pouco de neblina, é verdade, e o dia não estava muito claro. Lembro muito bem que os faróis do carro ainda estavam acesos. Dei sinal de luz, buzinei. Nada parecia incomodar aquela figura de proporções descabidas. Digo isso porque seus braços, que sustentavam mãos demasiadamente grandes, iam quase até os joelhos. Esses mesmos joelhos pontudos dividiam sem nenhum escrúpulo pernas fortes e escuras. Melhor dizer que eram pernas peludas, que faziam tremular restos de um tecido sujo que lhe envolvia a cintura.



Engatei a primeira marcha e decidi não esperar nem mais um instante. Não havia tempo a perder, outro carro poderia sair da mesma curva. Escolhi o lado esquerdo e prossegui muito lentamente. Seria inevitável passar bem perto da criatura.


Assim que o carro emparelhou com o aquela coisa, acelerei o máximo que pude, queimando pneus e jogando Luciano novamente para trás. Pelo retrovisor percebi que o misterioso animal ergueu seus braços descomunais e ficou saltando no mesmo lugar em que estava. Luciano, que da sua janela teve uma visão melhor, não parava de dizer que a criatura tinha enormes olhos amarelos, saltados para fora de uma cabeça grande e irregular, não sabendo definir se esta estava mais para quadrada ou para redonda. Toda vez que dizia isso, meu amigo demonstrava colocando seus próprios punhos fechados sobre os olhos, depois fazia sinal negativo com a cabeça, admitindo assim que a sua tentativa não chegava nem perto de descrever o que vira.


Do meu ângulo, durante a passagem, pude ver muito bem seus longos dedos com unhas em forma de gancho. O tórax do animal era muito largo em cima, dando a impressão de que não tinha pescoço. Parecia um amontoado de coisas, uma síntese sem critério de partes que não tinham nada a ver entre si nem com o todo. Nenhum dos muitos desenhos que fizemos depois chegou a nos satisfazer por completo.


Se Luciano tivesse me contado o que viu, eu não teria acreditado, assim como ele mesmo não acreditaria, se fosse eu o narrador. Ocorre que nós dois vimos a mesma coisa. Até hoje, onde quer que nos encontremos, sempre falamos um pouco daquela sexta-feira, início de sábado.


Coincidência ou não, o jornal do domingo, que ainda guardo, relatou dois acidentes fatais que ocorreram na mesma madrugada e no mesmo trecho, sendo que um deles se passou bem perto da entrada do Catolé."




Humberto Pimentel Costa.
Maio de 2004.

10 comentários:

  1. Vc e suas mesóclises...

    Fernanda van der Laan

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  2. O Taz?! kkkkk é mesmo!
    O bicho da Tansmânia kkkkk.....

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  3. É Mentira Terta???

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  4. Bem, acho que é preciso esclarecer algo aos leitores. Eu, senhoras e senhores, fui a primeira ouvinte dessa história esquisita. Até hoje, Beto e Luciano juram de pés juntos que isso aconteceu. O primeiro relato, ainda em 1993, contou com expressões faciais e trilha sonora. Foram cerca de 20 minutos de uma tensa narrativa. Minha incredulidade era sempre tomada como uma ofensa. Houve momentos em que vacilei, diante de tanta convicção dos dois narradores... Terá sido verdade? Só sei que tudo isso soa para mim como relatos sobre OVNIS: "Yo no creo em brujas, pero que las hay, las hay..."

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  5. O amigo Isaac Sandes, conhecido pela sua ampla cultura geral, utilizou, acima, o seguinte dizer: "É mentira, Terta?". Algumas pessoas me perguntaram o significado.
    Trata-se da frase utilizada por Pantaleão Pereira Peixoto, personagem de Chico Anisio.
    Pois bem, Pantaleão (marido de Dona Tertuliana e pai de criação de Pedro Bó), sempre conta uma história meio absurda a quem o visita. No final, diante do assombro do visitante, ele pergunta: "É mentira, Terta?", ocasião em que a Dona Tertuliana sempre responde:"Verdade!".
    Tenho para mim que Pantaleão foi inspirado no personagem Alexandre, da obra "Alexandre e outros heróis" do grande alagoano, jamais demasiadamente exaltado, Graciliano Ramos.
    Isaac, seus comentários sempre enriquecem qualquer discussão! Um grande abraço

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  6. Elaine!
    Ainda bem que você lembra. Eu, que sou meio brincalhão, não tenho tanta credibilidade.
    Mas, todos que conhecem o Luciano sabem que ele não é dado a mentiras...
    Bjs

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  7. Humberto.

    Realmente, tem você toda razão ao afirmar que o nosso querido pantaleão foi inspirado na obra do velho Graça, quem a lê, imediata e inevitavelmente faz a ligação de uma obra com a outra.
    Ambos os personagens contam suas estórias no alpendre de uma casa grande, cercado de alguns curiosos, e perderam a visão de um olho.
    Quando li Alelandre..., não pude deixar de fazer a associação.
    Já que o assunto é realismo fantástico, porque não transcreve no Blog a estória da onça ?

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  8. Humberto.

    -Não teria sido aquilo, o seu primeiro encontro com a cadela Hannah??

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  9. Poxa, Isaac, a história da onça? Vou procurar...
    Talvez a Hannah tenha algo da Tasmânia em seu DNA!

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Muito obrigado pelo comentário!